Paris devolve o Rio Sena às pessoas

No projeto carros dão lugar à pedestres, ciclistas, cafés e até mesmo a um cinema ao ar livre.

No projeto carros dão lugar à pedestres, ciclistas, cafés e até mesmo a um cinema ao ar livre na frente da prefeitura.

Um ambicioso projeto do prefeito parisiense Bertrand Delanoë prevê a remoção de até 2km de vias expressas na margem esquerda do rio Sena para dar lugar a áreas de lazer, com quadras de vôlei, cafés, decks, jardins flutuantes e até mesmo um cinema ao ar livre. Já na margem direita do Sena, os automóveis terão a sua circulação e velocidade mais limitados, com mais semáforos e travessias de pedestres.

Acima, a margem esqueda do rio Sena como é hoje, em frente à prefeitura.

“O fato é que o automóvel não tem mais lugar nas grandes cidades do nosso tempo.” – Bertrand Delanoë, prefeito de Paris, 2012.

Pela via expressa da margem esquerda foi construída na década de 60 e por ela passam diariamente 40.000 veículos, chegando nos horários de pico a 4.000 carros por hora.  A via Georges Pompidou, como é chamada, é atualmente a maneira mais direta e rápida de se atravessar a cidade de leste a oeste. Com as mudanças a prefeitura de Paris estima que os motoristas terão apenas seis minutos a mais de viagem.

Segundo a administração municipal, essas mudanças são apenas o primeiro passo. Graças às políticas de mobilidade de Delanoë, Paris viu nos últimos anos uma redução de 20% na utilização do automóvel particular.

Enquanto isso em Porto Alegre, a administração municipal está construindo um viaduto em plena orla do Guaíba e alargando a avenida Beira-rio. Indo num caminho completamente oposto. Será que tudo isto vai ser feito para ser desfeito daqui a alguns anos?

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Por uma cidade sem viadutos.

Se de um lado estamos olhando a uma possível (temporária?) vitória na questão da trincheira da Rua Anita Garibaldi, que a administração municipal parece estar deixando de lado tendo em vista o desgaste político, de outro lado as obras de outros viadutos e trincheiras seguem o seu calendário.

Hoje começaram as obras do viaduto de dois andares da Av. Bento Gonçalves, mais uma obra, entre outras tantas, que não vai solucionar os problemas de trânsito e mobilidade, mas vai degradar a área ao seu redor, tornar mais difícil e desagradável a vida das pessoas que vivem e circulam pelo local, vai dificultar a circulação de pedestres e ciclistas, que correrão maiores riscos e terão que caminhar maiores distâncias, vai aumentar a poluição atmosférica, sonora e visual, pois ao contrário do que apresenta a simulação da Prefeitura essa poluição se acumula no ar e nas superfícies, causando sujeira e problemas respiratórios.

Acima: simulação da Prefeitura ignora a poluição atmosférica e fuligem acumulada ao redor do viaduto.
Abaixo: simulação com fuligem e poluição.

Portland nos E.U.A.: VLT e traffic calming.

Precisamos começar a pensar em como é a cidade na qual queremos viver. A cidade da imagem a cima ou a cidade da imagem ao lado? A diferença é entre investir em transporte motorizado individual ou investir em transporte coletivo de qualidade, traffic calming e na qualidade de vida. Exemplos a seguir existem vários: NY por exemplo, transformou um antigo viaduto ferroviário que degradava a cidade em um parque com 1,6 km de extensão (o High Line Park) e San Francisco aproveitou que um terremoto danificou a estrutura de uma free-way que atravessava a região portuária para demolí-la e revitalizar

High Line em Nova Iorque, valorizou os imóveis da região.

a região (Embarcadero). Qualquer cidade no mundo que esteja na vanguarda da mobilidade, do planejamento urbano e da qualidade de vida já percebeu que a solução para o trânsito e para a qualidade de vida nos grandes centros urbanos não passa pela construção de viadutos e investimento no automóvel particular. Pelo contrário as grandes cidades do mundo estão restringindo e dificultando o uso do automóvel, com pedágios urbanos e redução dos espaços de estacionamento e circulação de automóveis.

Viaduto planejado para a Avenida Edvaldo Pereira Paiva (Av. Beira Rio).

Enquanto isso, em Porto Alegre estamos construindo e planejando diversos novos viadutos, são pelo menos cinco na Terceira Perimetral,mais um em frente a Estação Rodoviária e um em plena orla do lago Guaíba. E o que vamos fazer a respeito? Vamos continuar acreditando nas imagens e soluções falsas que nos vendem? Ou vamos lutar por cidades com transporte público de qualidade, cidades caminháveis e com qualidade de vida e por verdadeiras soluções para o trânsito?

E o pedestre que morra.

A tendência nas últimas décadas têm sido só o “alargar avenidas, garantir o fluxo de veículos”, não importando os custos ambientais e de qualidade de vida que isso tiver. E essa máxima está chegando cada vez mais a níveis absurdos.

Me senti impelido a “roubar” essa foto que um amigo meu fez, pois essa calçada na Avenida Cristóvão Colombo é um exemplo grotesco:

Essa calçada ilustra a irresponsabilidade da Prefeitura Municipal e tem no máximo (se é que tem!) 40 ou 50cm de largura. Não passa cadeirante, pessoas obesas e pais e mães com carrinhos de bebê são forçados a andar pela rua. O direito de ir e vir e a segurança do pedestre cerceados para que pessoas egoístas que andam sozinhas em um veículo de uma tonelada possam se deslocar rapidamente sem enfrentar congestionamentos.